quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cesariana

Quinto filho
 No ano em que chegamos há Rhodésia,fiquei grávida.Tentei.e planeei ir à África do Sul,fazer um desmanche mas,o Zé não me deixou.Até me ameaçou
que faria queixa de mim à policia.Eu achava que eram filhos a mais,e não sabia qual seria o meu futuro.
Continuei a trabalhar no O.K.Bazaar,até aos seis meses de gestação.Nesse meio tempo,comecei a dizer à minha família,que queria as minhas filhas comigo.Como sempre a minha mãe,respondeu-me que a mais velha,não iria a lugar nenhum,pois andava a tratar de entrar para a função pública.Já a outra,a mais nova.....estava a dar-lhe muitos dissabores.Vim a saber que ela,tinha  fugido de casa seis vezes
 tinham posto a sua foto nos jornais,a qual me mandaram.Numa dessas vezes,fez-lo com uma colega da escola,foi para uma praia e meteu conversa com uns pescadores que haviam por lá.Quando foi encontrada a minha mãe perguntou-lhe o que é que tinha acontecido,ao qual ela replicou que os pescadores as tinham violado.Quando a policia a fez ser vista por uma junta médica,nada tinha acontecido.Fiquei em pânico.
Como é que eu podia ter tido uma criança tão paranóica,tão cheia de problemas?! Ou seria por causa de ser criada pela minha mãe,pensando que eu a havia desprezado?Por essa razão,resolvi que assim que eu tivesse o meu filho,iria buscá-la.
Tinha por fim chegado o dia do nascimento do meu último filho! Andei toda a noite com dores,e por volta das 8h da manhã rebentaram-me as águas,mas,a criança não queria sair.Estive à espera do meu médico até
ás 12h cheia de dores.Quando o Dr. chegou,começou a tentar dar-me explicações,de como ia fazer e porquê.Mandei-o calar e disse-lhe;"Dr.faça o que tem de fazer mas depressa"!
Quando abri os olhos,passadas duas horas,o Zé disse-me todo sorridente,"É mais um rapazito".Adorei.
Acho que os rapazes são o máximo.E dei graças a Deus,por não ter feito o desmanche!
Passados três dias,fomos para casa e foi uma festa.Acho que os mais "velhinhos",devem ter pensado que o meu bebé era um brinquedo.....  

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Memórias

mudanças de vida
 Certo dia,fui passear com os meus dois filhos,um de três outro de dois,e quando íamos a passar ao pé do "mira mortos",um africano puxando de uma faca diz-me:"Si eu mata,meninos?"Dois homens que se aperceberam do que se estava a passar,vieram em meu socorro,levaram os miúdos e eu fui andando devagarinho até eles.Chegamos a casa esbaforidos,e ao
mesmo tempo assustadíssima.
A minha casa,estava cheia de balas,uma ponte 21,(uma espingarda para matar elefantes).Dentro dos vasos de flores,metidos dentro de sacos de plástico,haviam granadas.Ouviam-se coisas incriveis .....que a Frelimo entrava nas nossas casas e matavam as famílias.Ás vezes apenas e só, porque tínhamos uma faca de cortar o pão.Era o ambiente em Moçambique em 1975!
Nessa noite combinei com o Zé,começarmos a fazer as nossas malas,a arrumar tudo que pensávamos levar,
e partir para a Rhodésia,mas o Zé estava "marcado",pois não era nada "meigo",quando algum africano lhe faltava ao respeito,ficou por isso combinado que ele iria à frente,e nós,(eu e os miúdos),logo atrás de comboio.Nós tínhamos um pick-up,que era um móvel que dum lado tinha gira-discos e do outro rádio,era forrado atrás,por uma placa de cartão fininho,pregado por pregos muito pequeninos,onde pusemos a espingarda e as balas escondidas.Quando apanhamos o comboio,as nossas coisas foram num vagão de mercadorias.Antes do comboio arrancar,eu fui chamada,para mostrar as mercadorias.Sabia que se alguma coisa fosse encontrada,seríamos presos,mandados para um campo de concentração,e os miúdos seriam criados,para engrossarem as hostes da Frelimo.Era preciso muita cabeça fria e sentido de autocontrol,que eu não tive....nunca paguei tanta cerveja,como naquele dia,gritava como uma maluca,com os miúdos,"anda para aqui,não mexas aí".....parecia doida,só parei quando eles me assinaram o papel para a Alfândega e me mandaram seguir.Eu só pensava que poderia ter acontecido uma tragédia....A viagem demorou quatro horas até Salisbury,e quando cheguei ao pé do Zé,ainda tremia.Ele já havia alugado um apartamento no centro.Aí ficamos durante dois anos,ao fim dos quais arranjei outro,um pouco mais fora do centro,e onde arranjei uma nany,para tomar conta dos meus rapazes,para eu poder ir trabalhar como balconista do O.K. Bazaar.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Separação

Partida
 Já estou na Beira,há um mês o Zé está a trabalhar com um patrão,coisa muito anormal,pois quem foi dono e Sr. durante dez anos,de repente ter que receber ordens,é dose!
Eu continuou a olhar por estes "diabinhos",são lindos os meus filhos mas,dão muito trabalho.
Um  dia fui à cidade com uma amiga,e fomos lanchar ao"Kanimambo",e encontrei o João Paulo!Para mim ouvi-lo outra vez é como escutar uma musica antiga que ficou para sempre na cabeça,e no coração,como uma nostalgia que me invade com a triste sensação de perda.
"Tenho tantas coisas para te dizer para te perguntar",digo eu.
"Sobes-te que estive no hospital....e não me foste ver"???
"De que serve dizer-te que não soube,não vais acreditar,só soube hoje".
Eu penso que gostaria de lhe dizer,que admito os erros do passado,partilhar com ele o que tinha falhado,
mas não o consigo fazer.Talvez por orgulho,por ressentimento,por alguma razão mais forte do que eu,não consigo."Tenho tanta coisa para te dizer,tudo o que aconteceu entretanto e não contei,as saudades que senti,e que ainda sinto"."Foi por isso que não te telefonei antes,porque nunca mais quises-te saber de mim.
Ele demora um instante e replica."Foste tu que não quises-te saber mais de mim""Tens razão,foi mútuo digo eu conciliadora".Percebi sempre,naqueles suspiros,o ardor de um amor que me acompanhou durante grande parte da minha vida."Valeu a pena?"perguntei-lhe de chofre,ainda a sorrir,já sem mágoa."Valeu a pena o quê?",interroga-me ele,sem se aperceber onde quero chegar."Teres-me deixado.Nunca te arrependes-te?"É
difícil dizer agora,afirma,não sei se teria sido mais feliz se tivesse ficado contigo.Mas é bem possível que sim,
admite.A ideia de felicidade sem ser com ele,parece-lhe absurda,sem sentido.
Entretanto a tarde vai caindo,o sol enfraquece,levanta-se um vento frio.Dali a pouco vou-me embora.Tinha que ser,tenho uma outra vida,filhos....agora é tarde.Há em mim uma infelicidade dolourida,a ponderar as decisões do passado,o que fiz,o que poderia ter feito....não me dou conta mas,lentamente uma lágrima teimosa cai pelo meu rosto.Quando chego a casa o Zé,diz-me que amanhã temos de nos ir despedir duns amigos que vão embarcar para Portugal.No dia seguinte, arranjo os miúdos, e partimos direitos ao Aeroporto.Não consigo ultrapassar a impressão de que não estou verdadeiramente a viver,mas apenas à
espera de algo que me devolva a felicidade.E é quando o vejo.Ele está ali a tratar de embarcar para Portugal também!É horrível mas é a solução,penso, entregar-me a quem me mereça e esperar que o tempo resolva o resto.....  

sábado, 3 de agosto de 2013

Evasão de Moçambique

Guerra no Ultramar
No dia 23/02/1973 de manhãzinha,comecei a sentir dores,o Zé levou-me à   delegação de saúde de Nacala,onde fui atendida por uma enfermeira parteira,que me disse que ainda demoraria muito tempo.Eram 9h.da manhã.O Zé ao ouvir isto foi levar um carregamento.No entanto,eram 9,30h,o meu bebé nasceu.Tenho um episódio muito giro,que vos vou contar;a parteira devia de ter tirado o curso por
correspondência,pois não me quis tirar as secundinas,dizia ela,que o bebé me havia
rasgado e que era preciso cozer,e que assim era menos doloroso.Mas as dores foram tão fortes,que eu mandei-lhe um pontapé,que ela não galgou a janela por sorte...nesse dia fiquei até as
22h.sem comer,pois o pai do bebé só chegou a essa hora.
A vida com dois bebés,é um tormento,porque quando um quer uma coisa o outro quer precisamente o mesmo.Estou completamente doida,e já pensei que se conseguir levar isto a bom termo,então serei uma óptima mulher e mãe.
Passei o fim-de-semana ocupada a tratar dos bebés,da roupa,mudei os lençóis das camas,aspirei enfim,a fazer o que vai ficando para trás.O Zé é prestável e divertido,por vezes tenho vontade de dizer como nos contos,"era uma vez um casamento perfeito"....A história poderia começar assim se houvesse casamentos perfeitos,mas não é assim,eu não posso deixar de pensar que perder uma ligação com a pessoa que amamos....No entanto,põe em perigo a nossa sensação de segurança e faz-nos experimentar um sentimento primário de pânico,é o que se passa comigo.É impossível mandar no coração.....Quando vou para a cama é
que é pior,tenho sempre medo de involuntariamente chamar pelo nome do outro.....
Os meus filhos vão ocupando os meus dias,para não dar licença ao cérebro de pensar....
O Zé foi levar gasolina,para a aviação de Mueda,pisou uma mina,e ficou sem a "Berliet"!
Agora vamos voltar para a Beira pois ele tem de começar a trabalhar para outra pessoa,pois sem camião é impossível continuarmos.Não estou feliz pois com o problema da guerra,a Frelimo tem feito esperas aos camionistas,matando-os e cortando-os aos bocados para depois os meterem em barricas com sal.Deixei de andar com o Zé no camião,(também com os miúdos,não seria possível).Mas o que fez o Zé,não consentir mais nisso,foi o facto de que quando apanham as mulheres,teêm relações sexuais com elas em frente aos maridos,depois castram-nos,antes de os matarem,e põem os pénis enfiados nas ramas das árvores! As mulheres eram levadas para campos de concentração para gladio dos homens da Frelimo.
Foi quando começamos a pensar deixar Moçambique.