sábado, 3 de agosto de 2013

Evasão de Moçambique

Guerra no Ultramar
No dia 23/02/1973 de manhãzinha,comecei a sentir dores,o Zé levou-me à   delegação de saúde de Nacala,onde fui atendida por uma enfermeira parteira,que me disse que ainda demoraria muito tempo.Eram 9h.da manhã.O Zé ao ouvir isto foi levar um carregamento.No entanto,eram 9,30h,o meu bebé nasceu.Tenho um episódio muito giro,que vos vou contar;a parteira devia de ter tirado o curso por
correspondência,pois não me quis tirar as secundinas,dizia ela,que o bebé me havia
rasgado e que era preciso cozer,e que assim era menos doloroso.Mas as dores foram tão fortes,que eu mandei-lhe um pontapé,que ela não galgou a janela por sorte...nesse dia fiquei até as
22h.sem comer,pois o pai do bebé só chegou a essa hora.
A vida com dois bebés,é um tormento,porque quando um quer uma coisa o outro quer precisamente o mesmo.Estou completamente doida,e já pensei que se conseguir levar isto a bom termo,então serei uma óptima mulher e mãe.
Passei o fim-de-semana ocupada a tratar dos bebés,da roupa,mudei os lençóis das camas,aspirei enfim,a fazer o que vai ficando para trás.O Zé é prestável e divertido,por vezes tenho vontade de dizer como nos contos,"era uma vez um casamento perfeito"....A história poderia começar assim se houvesse casamentos perfeitos,mas não é assim,eu não posso deixar de pensar que perder uma ligação com a pessoa que amamos....No entanto,põe em perigo a nossa sensação de segurança e faz-nos experimentar um sentimento primário de pânico,é o que se passa comigo.É impossível mandar no coração.....Quando vou para a cama é
que é pior,tenho sempre medo de involuntariamente chamar pelo nome do outro.....
Os meus filhos vão ocupando os meus dias,para não dar licença ao cérebro de pensar....
O Zé foi levar gasolina,para a aviação de Mueda,pisou uma mina,e ficou sem a "Berliet"!
Agora vamos voltar para a Beira pois ele tem de começar a trabalhar para outra pessoa,pois sem camião é impossível continuarmos.Não estou feliz pois com o problema da guerra,a Frelimo tem feito esperas aos camionistas,matando-os e cortando-os aos bocados para depois os meterem em barricas com sal.Deixei de andar com o Zé no camião,(também com os miúdos,não seria possível).Mas o que fez o Zé,não consentir mais nisso,foi o facto de que quando apanham as mulheres,teêm relações sexuais com elas em frente aos maridos,depois castram-nos,antes de os matarem,e põem os pénis enfiados nas ramas das árvores! As mulheres eram levadas para campos de concentração para gladio dos homens da Frelimo.
Foi quando começamos a pensar deixar Moçambique.

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