| Guerra no Ultramar |
correspondência,pois não me quis tirar as secundinas,dizia ela,que o bebé me havia
rasgado e que era preciso cozer,e que assim era menos doloroso.Mas as dores foram tão fortes,que eu mandei-lhe um pontapé,que ela não galgou a janela por sorte...nesse dia fiquei até as
22h.sem comer,pois o pai do bebé só chegou a essa hora.
A vida com dois bebés,é um tormento,porque quando um quer uma coisa o outro quer precisamente o mesmo.Estou completamente doida,e já pensei que se conseguir levar isto a bom termo,então serei uma óptima mulher e mãe.
Passei o fim-de-semana ocupada a tratar dos bebés,da roupa,mudei os lençóis das camas,aspirei enfim,a fazer o que vai ficando para trás.O Zé é prestável e divertido,por vezes tenho vontade de dizer como nos contos,"era uma vez um casamento perfeito"....A história poderia começar assim se houvesse casamentos perfeitos,mas não é assim,eu não posso deixar de pensar que perder uma ligação com a pessoa que amamos....No entanto,põe em perigo a nossa sensação de segurança e faz-nos experimentar um sentimento primário de pânico,é o que se passa comigo.É impossível mandar no coração.....Quando vou para a cama é
que é pior,tenho sempre medo de involuntariamente chamar pelo nome do outro.....
Os meus filhos vão ocupando os meus dias,para não dar licença ao cérebro de pensar....
O Zé foi levar gasolina,para a aviação de Mueda,pisou uma mina,e ficou sem a "Berliet"!
Agora vamos voltar para a Beira pois ele tem de começar a trabalhar para outra pessoa,pois sem camião é impossível continuarmos.Não estou feliz pois com o problema da guerra,a Frelimo tem feito esperas aos camionistas,matando-os e cortando-os aos bocados para depois os meterem em barricas com sal.Deixei de andar com o Zé no camião,(também com os miúdos,não seria possível).Mas o que fez o Zé,não consentir mais nisso,foi o facto de que quando apanham as mulheres,teêm relações sexuais com elas em frente aos maridos,depois castram-nos,antes de os matarem,e põem os pénis enfiados nas ramas das árvores! As mulheres eram levadas para campos de concentração para gladio dos homens da Frelimo.
Foi quando começamos a pensar deixar Moçambique.
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