domingo, 30 de junho de 2013

Fadista

Fadista
 Estou desesperada,é impossível continuar assim.Já vos disse que tinha uma voz muito bem timbrada?Pois é dizia-se que eu até cantava bem.E foi isso que me levou a procurar emprego como fadista numa casa de fados.A princípio custou-me encarar aquela vida outra vez.Mas eu dizia a mim própria
que não era a mesma coisa.Eu estava ali para cantar,beber,e regressar aos
quartos que a companhia tinha para nós.
Passam-se alguns dias,até que uma noite para meu espanto,dou de caras com
o José Araújo,o camionista que havia querido conversar comigo tantas vezes,
enquanto eu era empregada da loja de modas.Fico paralisada,quero tentar que ele não me veja mas,já é tarde,já me viu.Dirigi-se a mim e pergunta-me se quero beber uma bebida com ele.Aceito,conversamos,pergunta-me desde
quando estou ali.Digo-lhe que à apenas quinze dias.Entretanto chega a minha vez de cantar.Quando volto ele já está de partida.Daí a pouco chamam-me para atender um telefonema,
quando atendo é o João Paulo a pedir-me que volte para casa.A minha resposta é"não vou porque sinto que que já não gostas de mim".Ele assustado,responde claro que gosto até gosto muito!Estou cá fora vem ter comigo.Eu levanto-me e corro para a rua.Quando entro no carro,abraça-me,beija-me e diz-me,não me deixes mais,protesta perturbado.Eu choro baixinho.....
Acredito que as histórias de amor que acabam bem,são só aquelas que vêm nos livros ou que são contadas no cinema - a vida real está condenada a estragar o principal,ou seja a imprevisibilidade e "os estados de paixão".

Dúvidas

Dúvidas
Voltei com o João Paulo para a Beira.Passou um ano desde que tive a certeza.Acreditei nele,outra vez nem sequer me passou pela cabeça que ele
tivesse dúvidas ou,pior do que isso,que me fizesse promessas que não fossem sinceras.O tempo tende a preservar só as melhores memórias,a esquecer os desentendimentos,as discussões,o que eu desejava ansiosamente
 que ele não estava preparado para me dar já,e eu não queria esperar.
 Precisava trazer as minhas filhas para o pé de mim,para não as perder,mas,
queria uma situação plausível,uma relação forte,queria casar com ele.
Sento-me na cama a meio da noite.Não consigo dormir.Levanto-me e vou à
cozinha,tiro um copo e sirvo-me de uma doze generosa de whisky.Vou para a sala,acendo a luz de cima,sento-me no sofá com as pernas recolhidas sob mim,a bebericar a bebida.
Estou apaixonada,penso,tenho de admitir que estou.Até agora andei a evitar este pensamento cauteloso e
mantive um certo distanciamento de sentimentos fatais.Mas estou apaixonada,ou não estou?E porque não consigo sentir-me completamente feliz?A minha vida é uma sucessão de desaires,que ficou para trás com um encolher de ombros, com uma indiferença fria e calculada,de ressentimentos ignorados para não ter de me culpar a mim própria.Talvez ele nunca perceba as minhas necessidades,o meu desespero de desejo de um pouco de amor,por algo mais que uma fantasia,passando por cima dos incontáveis destroços que deixa pelo caminho incerto,um dia, quem sabe o sonho se torne realidade.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Lourenço Marques
  Segui para Lourenço Marques,completamente perdida,porque eu não conhecia ninguém por lá e o dinheiro também não era muito.Um dia estando a almoçar num restaurante,vi um anúncio para esse mesmo local,a pedir quem soubesse falar línguas e tivesse conhecimento de atendimento ao público.Fui falar com o dono e fiquei com a posição,que incluía também alojamento.A vida começou a correr sem grandes sobressaltos.O restaurante ficava defronte da Companhia das águas,não era um grande restaurante,mas como ficava bem situado,estava sempre cheio.Sempre ocupada,não tinha tempo de pensar na minha vida,a não ser há noite quando ia dormir.
Às vezes ficava a pensar que esperava por uma mão que nunca chegava.Esperava que o tempo passasse,esperava que o amanhã fosse melhor.Andava à espera de uma motivação de um reconhecimento.
Mas essa espera não tinha fim.Tinha posto a minha felicidade em Stand by,como se a vida se pudesse colocar dentro dum baú e depois lá fossemos buscá-la quando nos sentimos preparados.Mas,felizmente a vida corre a cada segundo e temos de ser nós a criar o próprio impulso.Dar um murro na mesa e gritar para todo o nosso corpo e mente.Basta!Eu mereço ser feliz e também sei que tenho que fazer por isso.Não basta desejar,é preciso agir.E mesmo que tudo pareça complicado,quanto mais arrumamos a nossa vida a um canto,mais nos abandonamos e controle perdemos acerca do que somos.E tudo isto para dizer que não podia esquecê-lo.....Assim passei dois meses,até que um dia um colega do João Paulo,entrou no restaurante.Não liguei nenhuma,mas passado alguns dias o João Paulo apareceu-me e depois de conversarmos muito a sério,ele disse-me que me vinha buscar.Uma das frases que me disse,que ainda hoje recordo foi "Duvida da luz dos astros,de que o Sol tenha calor,duvida até da verdade,mas confia no meu amor."

domingo, 23 de junho de 2013

Saída de emergência

                              A vida continuou sempre com o mesmo amor e carinho que era habitual.
Saída
De dia cada um de nós ia trabalhar,de noite ia-mos primeiro jantar no Bar da    praia,depois voltávamos de nãos dadas para casa,para o nosso ninho de amor.E assim se passaram três anos.Um dia o João Paulo,foi fazer uma comissão a Angola,onde ficou três semanas.Uma  manhã,bateram-me à porta e recebi uma carta para o João,de uma mulher.Eu sabia que não era da mãe,nem das tias,pois esta carta vinha de Angola....não resisti e abri-a.A moça dizia-lhe que estava grávida e que dentro em breve viria ter com ele.Telefonei para o emprego a desculpar-me com uma indisposição,e à tardinha quando ele chegou,em cima da almofada estava a carta aberta.Ele entrou e quando se dirigiu ao quarto,viu-a e leu-a.Disse-me então que era tudo mentira.Mas eu,perguntei-lhe como é que ela sabia a morada dele?! Disse-me que não sabia mas,eu naquele momento já estava a  fazer as malas.Comecei a tentar descer as escadas,mas ele não me queria deixar ir.Por fim,vem-me tudo à cabeça,as recordações todas,os momentos bons,as promessas felizes,os jantares especiais,os dias na praia....e então sinto uma angústia tenho uma sensação de perda,uma certeza de que ninguém me amou como ele.Mas ao mesmo tempo,penso que,não se pode confiar nos homens,eles dão um braço para nos terem e depois de o conseguirem desinteressam-se,perdem o entusiasmo tão depressa quanto um balão a esvaziar-se.Acredito que a paixão é pior felicidade de todas porque se extingue inevitavelmente na saudade.                                                                                                                          Deixou-o adormecer,pego na mala fecho a porta da rua sem deixar uma nota,uma explicação.Ele sabe.Vou-me embora com um aperto no peito,uma sensação de derrota,uma tristeza.Apanho um táxi,e dou a morada do Aeroporto. 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

sábado, 15 de junho de 2013

1º Emprego

Balconista
 Eu tapo a boca com a palma da mão,espantada numa alegria incontida,o coração salta,uma lágrima feliz turva-lhe a visão.Ele abraça-me e diz-me em segredo Voltei minha querida.O João Paulo tinha chegado finalmente!
O Alexandre passou-lhe o apartamento,pois ele dizia que não podia mais viver
nele,por ter sido onde havia vivido com a  moça que morrera.
Eu entretanto,arranjei um emprego como caixeira,na melhor loja de modas da Beira,a "Soraya".Estive lá quase dois anos.Continuamos a  ir comer ao tal restau-
rante na praia,e era-mos felizes,só que ele não me falava na hipótese de fazer-mos vida de casados,e quando eu lhe falava  nisso,ele sempre me dizia que primeiro queria acabar a vida militar.Porém,no final desses dois anos meteu mais
dois.....
As nossas noites continuavam a ser perfeitas,não lhe encontrava menos interesse
por mim,pelas minhas carícias,pelo meu amor.Começava-mos as vezes no banheiro,onde a sua mão me acariciava  meigamente,e era infinitamente tranquilizadora e segura.Depois beijava-me.Eu deixava-me ficar muito quietinha,enquanto ele pegava em mim e me levava para a cama.Deixava-me ficar imóvel,numa
espécie de adormecimento,de sonho.Estremecia quando sentia a mão errante extremamente inábil,sob a pele.Mas aquela mão sabia bem o que fazer e o que queria.Nunca deixei de amá-lo.Sei que amava tudo
aquilo que ele representava na minha vida,sabia a falta que ele me havia feito desde que partiu,a angústia
devastadora que me deixou,tão forte que me ficou uma vontade incontrolável de o ter de volta.
Na loja em que eu trabalhava,havia um camionista que fornecia mercadoria,e que sempre se metia comigo.
Eu odiava o homem.Não gostava da maneira dele sempre a convidar-me para ir beber café,para almoçar....
Até que um dia vi um anúncio no Jornal,para escrituraria para uma "Cromagem Lusitana",e fui responder,
esperando ver-me livre daquele camionista,que me fazia uma abordagem serrada.E consegui o lugar.      

Vida nova

Vida Nova
 Segui para a Beira,num dia cinzento como cinzento estava o meu coração.
Eu só me perguntava porque é que quando nós nos estamos a dar bem,e a
nossa vida parecia ondear num vale cheio de flores,tinha-mo-nos que separar
de novo? Depois de uma despedida terna no Aeroporto,prometeu-me que
seria uma separação rápida,por apenas quinze dias no máximo,despedimo-nos ,eu com lágrimas nos olhos.Ele então disse-me baixinho:"De longe te hei-
de amar-da tranquila distância em que o amor é saudade e o desejo constância".
Quando cheguei ao Aeroporto da Beira,lá estava o Alexandre à minha espera.Levou-me para sua casa,que era na Praça da Índia,um apartamento pequeno mas muito simpático,de onde se via uma praia imensa com
restaurante de praia,onde ia-mos todos os dias comer.Sentia-me mal,pois gostava de contribuir nas despesas.Comecei então a ver anúncios no jornal,naquele tempo,prometi a mim mesma que a vida antiga
tinha terminado para sempre.Eu iria ter um emprego.Deus nos concede,a cada dia,uma página de vida nova,
no livro do tempo,mas aquilo que colocamos nela,corre por nossa conta.Queria fazer uma vida decente para mais tarde puder trazer as minhas filhas para o pé de mim.
Nesse tempo o Alexandre vivia com uma moça strepteese,mas que vivia só para ele,e com ele,por outras
palavras,era séria.Um dia a moça apanhou uma gripe,o Alexandre levou-a ao médico,o qual lhe deu uma
injecção de penicilina.Como ela era alérgica,a moça morreu ali mesmo nos braços do Alexandre.
Passados dois dias fez-se o enterro e o padre ao saber qual era o emprego dela negou-se a fazer-lhe o enterro! Passou-me um não sei quê pela cabeça,a raiva foi de tal ordem que devo ter chamado ao padre tudo menos pai....no meio de todas aquelas moças de cabaret eu fui a única que descompôs o padre como nenhuma outra pessoa ali presente.
Passados todos estes anos continuou sem compreender como as mulheres casadas,são infiéis aos maridos,e
ás vezes até nem é para darem de comer aos filhos,e não são julgadas......enquanto que as prostitutas são
tratadas abaixo de cão?!
Porque é que antes de se começar a criticar os defeitos dos outros,não se enumera ao menos dez dos nossos?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Novamente na Beira

Praia do Veleiro 
 Tudo tem fim.....e depois de um mês de encanto;enquanto esperava para   almoçarmos,e molhava os pés na maré baixa,ele fumava um cigarro na
varanda de madeira do bar da praia,esperando pelo almoço.Quando me   aproximei,disse-me que tinha uma coisa para me dizer.Fiquei em sobressalto
pois adivinhava o que era,mas ainda não queria que acontecesse tão cedo.
Defacto era o que eu pensava que fosse.Perguntou-me se eu tinha vindo com
viagem de ida e volta....disse-lhe que só tinha bilhete de vinda.Ele então
disse-me que eu tinha que voltar para a Beira.Perguntei-lhe se tinha casa para nós,respondeu-me que não.Eu iria ficar em casa do Alexandre,até há
chegada dele,e depois se veria.Nessa noite voltei-me para ele e disse-lhe:
"Sabes,nunca mais serei aquela que um dia fui." Ele levanta os olhos do livro,surpreendido.Estou a contempla-lo sinto-me melancólica.Sorriu-lhe e ele sorriu-me de volta,acentuando a melancolia na minha
expressão. Que disses-te? Pergunta-me.Estava a pensar que,depois de ti,nunca mais serei aquela que um dia fui,disse eu,como se fosse uma consciencialização de algo que já sabia mas que nunca ponderei,e que agora me atinge,reveladoramente.Ele sorri-me ainda desconfiado do meu pensamento                         .Algum arrependimento de última hora?
Eu sorrio-lhe ,ainda mais,com uma secreta euforia de felicidade,porque estou com ele e é tudo o que desejo
apesar de ser ainda um pouco irreal. Acho que é importante pensarmos nas coisas que nos fazem felizes,eu pensei nisto agora e tenho a certeza de que nunca mais me vou esquecer deste momento aqui contigo.
Ele levanta-se,abraça-me e diz-me....tens razão,sabes? Também eu não me vou esquecer destes momentos,nunca mais.......

domingo, 9 de junho de 2013

Paixão

Corações apaixonados
 Passamos dias maravilhosos onde eu esperava por ele junto ao mar,debruçada da pequena varanda da nossa casinha.Não sabia se sonhava ou se era mesmo realidade.Por vezes perguntava-me como é que eu vivendo num mundo tão diferente daquele que eu costumava viver,me sentia tão feliz?!
E chego à conclusão de que os problemas nas relações amorosas,é precisamente a comunicação.Auto-impus-me modos de vida e de ser que contrariavam a minha
natureza:queria ser" politicamente correcta",não dizendo o que pensava,
disfarçando as minhas emoções,mascarando o meu sofrimento,contando só alegrias.Levava a  vida a correr,
não tinha tempo nem sequer para ouvir a minha própria voz,quanto mais a dos outros.E se calhar,bastava ter
tido a coragem de falar de mim,a ele,de ter ouvido o que ele tinha para me dizer,para muitos dos nossos problemas não existirem.Vivi na ânsia da relação perfeita,e lidei mal com o facto de não a encontrar - mas a
relação perfeita,ou qualquer relação,ao contrário da maioria das coisas,não se vende no hipermercado.É
preciso procurá-la,alimentá-la,construí-la.É preciso sofrer por causa dela,é preciso acreditar nela quando
tudo está tão difícil,que só apetece desistir e partir para outra.Era preciso assumir que a nossa relação se ia
fazendo doe altos e baixos,de tentativas e erros,de alegrias e tristezas.Mas mesmo com todas estas incertezas,eu fui feliz.
Fomos parceiros amorosos,tornámo-nos emocionalmente dependentes um do outro para nos alimentar,
tranquilizár e proteger.

sábado, 1 de junho de 2013

Porto Amélia - Moçambique

Porto Amélia 
 Passo pela porta que dá acesso ao átrio,ele acena-me,acompanho o seu
movimento pela rampa de saída aliviado por me reconhecer,e por ver que estou ali sorrindo-lhe de longe.Espera que eu passe por um funcionário que
confere uma fila interminavel de malas encaixadas umas nas outras.
Encontramo-nos por fim,abraçamo-nos,beijamo-nos,e as dúvidas desfazem-se nesse beijo ansiado.Amo-o,não mudou nada,foi só o tempo que passou.
Chegamos à praia onde o João Paulo arrendou uma casa.É uma casinha na
praia,com telhado de colmo,pequenina.A praia a esta hora,é um imenso areal
dourado,deserto,o mar sereno vem morrer na areia molhada,recolhendo-se na maré vazia.O sol desaparece
devagarinho em poucos minutos.
Entramos em casa,tem um pequeno wall,e no quarto para o qual a minha atenção foi capturada.Estava um
espanto;em cima da cama,repleta de pétalas de rosas vermelhas,e numa mesa ao lado,duas velas,dois copos
e champanhe.Tudo se conjuga para o que se vai passar ali.Muito lentamente,sem pressas,ele puxa-me as
calças de seda,até aos pés,lenta e cuidadosamente.Depois com um estremecimento de indizível prazer,ele
sentiu o meu corpo quente e macio abandonar-se,e beijou-me o umbigo.E teve de penetrar imediatamente no meu corpo.
Ele disse:-Ah,tocar-te! murmurou,acariciando-me a minha pele quente,da cintura e das ancas.
Discutir o que cada um sente nesses momentos,é impossível.Assim tudo o que podemos pensar é que existe
um destino,em que cada um encontra aquilo que é importante para si quando se ama.
E eu amo-o muito,muito,tanto que sinto que este amor continuará para além da morte!